Sentir-se "pobre"...

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No decorrer do ano passado, após a nossa Conferência de Cura, fiquei pensando muitas vezes sobre quem são “os pobres”. 

Me parecia que fosse evidente, mas só então seu significado em minha vida estava se esclarecendo. Ainda estava precisando perceber que “os pobres” têm muitas rostos nada fáceis de identificar.

Lentamente, durante estes últimos meses, certas lembranças, imagens, situações e experiências vividas em Cincinnati foram voltando à minha mente e pude finalmente dar a elas um rosto e um nome.  Lembrei-me da sensação que eu sentia, em certas circunstâncias, quando eu não tinha saída, nem mesmo os subterfúgios habituais que eu pensava poder encontrar.

A Pobreza de Ter

A experiência que deu um rosto a esse sentir-me “pobre”, aconteceu durante o último inverno, na Itália, um inverno mais frio do que o habitual.  Fiz uma experiência de “pobreza ao contrário", isto é, não estava me faltando coisa alguma.  Fora a normal preocupação pelos outros, eu estava passando mais um inverno com todo o conforto, suficientemente protegida.  Mas desta vez, estava sentindo “a pobreza de ter", ou seja, de não ter perdido nada.  E senti este tipo de pobreza me fisgar como um anzol que deixa a sua ferida.

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À noite, perturbavam meu sono as vozes e os rostos de quem me procurou pedindo um refúgio, roupas, cobertores e alguma ajuda durante o dia.  Muitos ficaram sem gás, que havia sido desligado porque não tinham tido como pagar a conta.  Nos dias mais rigorosos deste inverno, essas pessoas passaram um frio ainda maior, sem poder nem cozinhar.

Percebi, durante esse mau tempo, que o meu próprio ser se transformava por eu estar ali, em contato com o sofrimento daqueles que nada tinham, um pouco como Irmã Antonietta Potente descreveu durante a nossa Conferência: “. . . esse estranho modo de estar alerta . . . que, na maioria das vezes, implica em estranhas transformações silenciosas.  É o que acontece com aquilo que já existe, ‘e do seu tesouro tira coisas novas e velhas. . . .” (Mateus 13,52). Somente mais tarde tive a força necessária para aceitar esse estado de ser, sem fugir do desconsolo que estava sentindo, nem ceder a justificativas ou sentimentos de culpa, porque não havia nada mais que eu pudesse fazer.

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 Aquele meu “estar ali” se tornou uma "oferenda" a Deus, o único que nunca nos abandona.  Consciente de que não temos como livrar o mundo da pobreza e do sofrimento, senti que havia ao menos uma coisa que eu poderia e deveria fazer: assumir o sofrimento dos outros, acolhê-lo e oferecer a eles uma caminhada de transformação capaz de gerar coisas novas, assim como “o grão de trigo . . . se cai na terra e morre . . . então, produz muito fruto . . ." (João 12, 24).

Hoje, não me preocupo mais com esse meu “ser pobre" porque me falta alguma coisa, ou por causa dos que são pobres devido àquilo que lhes falta.  Minha própria pobreza é a minha necessidade de aprender a lógica do Evangelho de Jesus, nosso Mestre, que nos ensina a conjugar os verbos da vida e a perceber que o verbo "amar" é como um tempo, ou um modo, do verbo "morrer".

Ir. Tina Ventimiglia, sfp

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